Não é só bala que mata

Rio de Janeiro

O que mais me surpreendeu no caso envolvendo o exército e os rapazes recentemente mortos no RJ não foi a reação pública promovida pela população do morro da Providência, nem tampouco a forma truculenta como os manifestantes foram repelidos pela tropa de choque. O que me chamou a atenção foi a ingenuidade do tenente, que teria pedido aos traficantes que aplicassem um “corretivo” aos rapazes capturados. A justificativa não é menos estarrecedora: o objetivo seria “não perder o prestígio diante da tropa”.  Ora, não se pode perder o que não se tem; e muito menos o que nunca se teve. O tenente em questão deveria saber que sua obrigação como cidadão – e, mais ainda, como militar – é respeitar o Estado de Direito. Não há nada que se possa colocar à frente disso. Nem mesmo o suposto respeito dos homens de seu comando.

Ademais, de que respeito estaríamos falando? Nem em estado de guerra – com as exceções que lhe cabem e caracterizam – se faz lícita a entrega de prisioneiros civis ao exército inimigo. Por óbvio, trata-se de assinar-lhes sentença de morte. Mas, não em se tratando daquela situação!

O tenente, com estratégia magistral, concluiu que a melhor forma de educar os provocativos jovens seria entregá-los a uma facção criminosa. Não o Estado, não a Lei, não as instituições; muito menos os pais ou responsáveis. Os melhores para “dar um jeito” na situação eram justamente aqueles que não tem mais jeito. E o (des)governo paraestatal tem a sua legitimidade reconhecida por nossas Forças Armadas.

Talvez possamos transferir as decisões jurisdicionais para os morros cariocas. As sentenças, certamente, sairiam ainda mais céleres do que na mais eficiente Vara de Juizado Especial… Além de que se obteria, com tal expediente, uma formidável economia de escala: ao invés de ter juízes comprados, o Estado transferiria aos traficantes o exercídio da salutar função de juízes. E enquanto isso, o Exército cuidaria do policiamento…

9ed41a6c655266397d65ea5e6696c8a3 André Rivail Medrado

“O covarde nunca medrou, nem quem perto dele morou.”

Publicado em:  on Agosto 12, 2009 at 5:09 pm Deixe um comentário

A miopia dos falcões e as asinhas da UE

 

Alguns movimentos recentes da UE apontam para uma rivalização com os EUA. Já há muito o Velho Continente renunciara ao poder que exercera nos séculos XVIII, XIX e ainda no começo do XX. Agora, parece vir à forra. Ante uma superpotência atordoada com as reviravoltas econômicas e sociais no plano interno, e os equívocos beligerantes no plano externo, a dita “maior democracia do mundo” tem tomado um banho de água fria, forçada a baixar a crista e a assumir como uma realidade tanto a recessão econômica com a crescente perda de influência no plano internacional. Trata-se, de fato, de uma nova ordem que se anuncia. E a pergunta é: que nova ordem seria essa?

A UE tira proveito. A decisão de retomar incondicionalmente as conversações com Cuba desagrada o governo norte-americano menos pela ajuda que a Europa certamente oferecerá à ilha de Fidel que pelo aspecto simbólico de uma tal decisão. 

O chanceler espanhol, Miguel Ángel Moratinos, em resposta à reação negativa dos EUA, rebateu: “Pedimos respeito à política da UE, que tem autonomia e legitimidade suficientes para agir em uma região importante como é a América Latina”. A Europa, que nos casos do Afeganistão e do Iraque quedou silente frente ao rolo compreensor norte-americano no Conselho de Segurança da ONU, agora não quer se calar. Aliás, com tantas questões mais urgentes e pendentes – leia-se, o “não” impingido pelos irlandeses ao Tratado de Lisboa -, a inclusão da retomada de relações com Cuba na agenda de prioridades não seria mera coincidência. 

Trata-se, pois, de um sinal de força: a UE está cada vez mais pondo as suas asinhas de fora. Enquanto isso, o Império cede às “novas invasões bárbaras”. E enfraquecem-se, depenadas, as asas dos míopes falcões americanos.

  André Rivail Medrado

“O covarde nunca medrou, nem quem perto dele morou.”

Ano eleitoral: mais do mesmo…

  É comum, desde que nos conhecemos por gente, a idéia de que a publicidade eleitoral nada agrega à nossa capacidade de escolha, quando se trata de, frente às opções que se nos apresentam, votarmos naquele que, em geral, nos pareça o menos pior. A sucessão de baboseiras é, geralmente, assustadora; e somos, então, dia após dia, submetidos a um lastimoso espetáculo: esperam de nós que creiamos naquilo que dizem e/ou prometem mas, em geral, nada há que ser dito ou prometido. O jogo democrático se reduz, desta forma, a uma abissal hipocrisia.

 

E o que há para que nos surpreendamos? Talvez o muito de surpreendente nisso, em primeiro lugar, seja a nossa incapacidade de nos surpreendermos. Estamos assim assim tomados por uma torpeza que já é própria da vida coletiva contemporânea. E que não se leia nisso nenhuma nostalgia a um suposto tempo em que as pessoas eram engajadas, os políticos sérios e comprometidos e o mundo um pouco mais justo. Esse dia, se não se encontra no horizonte da memória, está, como de fato sempre esteve, no horizonte do possível. E deveria ser este o porquê de levantarmos da cama todas as manhãs.

 

Mas já nos fazemos hoje bem mais mesquinhos e muito menos pretensiosos. A vida traz contingências que, lhe sendo próprias, impõem respostas imediatas. Não há tempo que nos reste; não há tempo a ser perdido; não há tempo para nada, enfim… E muito menos – o que nos soa evidente – para assistir ao horário eleitoral gratuito.

 

De qualquer modo, não nos iludamos: ele vem aí. Bem ou mal produzido; com uma ou outra novidade; contudo, provavelmente sem novidade alguma. E nos servirá, ao menos, para a mais insólita e imprópria finalidade: impedir que percamos nosso tempo com a ordinária programação televisiva brasileira.

 

 André Rivail Medrado

“O covarde nunca medrou, nem quem perto dele morou.”

Publicado em:  on Junho 16, 2008 at 9:22 pm Deixe um comentário
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