Ser Mulher
Discussões a respeito dos gêneros ganham espaço na mídia em datas como essa: o dia internacional da mulher. Seriam elas melhores gestoras? Teriam maior sensibilidade? Teriam inteligências múltiplas? Exerceriam o poder nas organizações de forma mais “humana”? Trata-se, enfim, de um conjunto de afirmações supostamente científicas, supostamente empíricas, ditas como comprováveis ou verdadeiras. Balela.
Conhecemos mulheres humanas e outras absolutamente cruéis. Ouvimos a respeito de mulheres que deram suas vidas por seus amigos, por seus familiares ou por desconhecidos, e outras que abandonaram os próprios filhos. E tanto quanto se costuma reconhecer coisas admiráveis acerca da essência feminina – o melhor exemplo estaria no chamado instinto materno – não é incomum reconhecer-lhes características não tão louváveis como competitividade acirrada (em especial com outras mulheres), sentimentalismo à flor da pele ou natureza excessivamente temperamental.
De que importa? Conhecemos homens altamente competitivos, sentimentalistas e temperamentais. E não é difícil encontrar por aí pais tremendamente “maternais”. E esse negócio de natureza feminina recai, como é usual, num vácuo de sentido.
Seriam características capitais da feminilidade uma doce fragilidade, uma desmedida vaidade, a incendiária sensualidade? Pois também abundam os homens de caráter frágil, os profundamente vaidosos (conhecidos como “metrossexuais”), bem como os homens que, nas academias, perseguem uma condição sexy, etc., sem nos possamos desvencilhar das mulheres que corrompem aquela dita natureza, surpreendendo nossa expectativa com um gênio forte, um temperamento enérgico ou um estilo desleixado.
Onde estaria, pois, essa suposta natureza? O que poderíamos honrar ou exaltar numa data como o dia internacional da mulher? Afinal, o que é ser mulher?
Não há resposta. A natureza feminina, paradoxalmente, não existe e está em todo lugar. Em cada mulher ela se manifesta, em sua singular existência, em sua capacidade de ser o que é, como é, deixando uma marca indelével na vida daqueles com quem convivem. Essa é a única essência possível: possuindo uma intuição que não se lhes pode negar, em todos os tempos, em todas as épocas, pouco importa o país, a cultura, a raça ou a religião, lutando por dignidade, seguem as mulheres em busca do direito de serem felizes, do direito de ser o que são: multifacetadas, inconstantes, inapreensíveis, como de resto somos todos nós.
O que importa numa data como essa não é a festa que se quer fazer em nome dessa suposta natureza feminina. O fato é que todos os dias, em todas as partes do mundo, homens e mulheres são privados de seus mais básicos direitos. Todos os dias homens e mulheres lutam por espaço, pela chance de criar os próprios filhos, por respeito, por igualdade. E não nos adianta querer falar em igualdade de direitos frisando diferenças de essência entre homens e mulheres, o que, de resto, só reforça a desigualdade e o preconceito.
Somos todos humanos: homens, mulheres, hétero ou homossexuais, e isso não nos faz melhores ou piores uns em relação aos outros. E se existe um dia como o 8 de março é justamente por conta dessas desigualdades que justificam lutas, desigualdades paradigmatizadas nos acontecimentos de 1857, em que operárias de uma fábrica de tecidos de Nova Iorque, ao promoverem uma greve reivindicando melhores condições de trabalho (redução na carga de trabalho de dezesseis para dez horas diárias, equiparação de salários com os homens – as mulheres recebiam em média um terço do salário de um homem para executar o mesmo tipo de trabalho – e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho), foram trancadas dentro da fábrica, em seguida incendiada, o que resultou na morte de cerca de 130 tecelãs.
Que um fato como esse tenha acontecido só nos pode nos trazer pesar. Que fatos de igual crueldade ainda aconteçam, em pleno século XXI, contra mulheres, homens, crianças, por conflitos étnico-raciais, religiosos, econômicos ou políticos, é o que mais nos choca e surpreende. E a única vacina realmente eficiente contra a violência, a desigualdade e o preconceito é a conscientização. O que podemos fazer, cada um de nós, é mudar a atitude e reconhecer os pequenos atos que reproduzem um certo machismo, o que, aliás, ocorre com tanta frequência entre os homens como entre as mulheres.
Sensíveis ou não, vaidosos ou não, maternais ou não, somos todos imperfeitamente humanos. E a luta por direitos – único motivo para um “dia internacional da mulher” – não se pode fazer ressaltando-se diferenças de natureza, mas, ao contrário, reconhecendo-se que diferenças não existem. Somos todos essa mesma coisa indefinida e alimentamos esse mesmo desmesurado desejo por algo que não sabemos bem o que é.


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